Domingo, 08 de Dezembro de 2019

Mato Grosso

Quarta-Feira, 17 de Julho de 2019, 15h:09

GRAMPOLÂNDIA PANTANEIRA

Cabo Gerson revela participação do Gaeco nas escutas; ameaça contra Selma Arruda justificou mais grampos

A Barriga de Aluguel não começou na PM, ela existe no Gaeco há muito tempo", afirma o cabo.

Da Redação

O cabo da Polícia Militar Gerson Corrêa está sendo reinterrogado nesta quarta-feira (17) na 11ª Vara da Capital, especializada em crimes militares.
O depoimento ocorre no âmbito da ação penal relacionada à “Grampolândia Pantaneira”. O cabo é acusado de ser o operador do esquema de escutas clandestinas, que ficou famoso como"grampolândia pantaneira".

O interrogatório começou às 14:13h.

O cabo iniciou confirmando a participação de membros do Ministério Público que pediram a inclusão de dados telefônicos de membros da família Riva. Afirma que o promotor de Justiça, Marco Aurélio, utilizou-se da Operação Metástase para ouvir ilegalmente Janaína Riva por meio do Núcleo de Inteligência da PM. Janaina foi grampeada para investigar o pai dela, José Riva, e tentar encontrar algo que a comprometesse. Ele reitera que  os 'donos do grampo' são o ex-governador Pedro Taques e o seu primo Paulo Taques.

Reprodução

Cabo Gerson

 

À época uma suposta ameaça de morte à então juíza da 7ª vara da Capital, Selma Arruda, foi usada como justificativa para instalar novos grampos. Ele explica que o promotor Marco Aurélio mandou que ele ouvisse a juíza. "Eu fiz um relatório sobre os fatos. Minucioso, mas fantasioso, porque não guardavam relação com a verdade dos fatos. Foram incluídas informações para subsidiar interceptações contra Antônio Carlos Milas, sua esposa Silvia Milas, Silval Barbosa, Antônio Barbosa".

"A Barriga de Aluguel não começou na PM, ela existe no Gaeco há muito tempo", afirma o cabo.

Segundo o cabo Gerson, instaurar investigações com relatórios fantasiosos é prática constante dentro do Núcleo de Inteligência PM e do GAECO. Ele citou que as operações Arqueiro e Ouro de Tolo também foram usadas para justificar novos grampos. 

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A Barriga de Aluguel não começou na PM, ela existe no Gaeco há muito tempo.

A Operação Ouro de Tolo utilizou-se ilegalmente de dados da Operação Arqueiro, afirma o cabo. Além disso, utilizou-se de grampos em números de Roseli Barbosa e sua família. Intenção do MP e do GAECO era promover 'show de pirotecnia' com vazamentos, diz o cabo Gerson.

O cabo afirma ainda que a captação de vídeo e áudio de José Riva na Operação Imperador foi preparada para atender demandas do Fantástico, da Rede Globo. Policiais Militares atenderam a pedidos da emissora.  Segundo ele, conversa de Silval Barbosa e o desembargador Marcos Machado foi vazada pelos promotores Marcos Bulhões, Samuel Frungilo e Marco Aurélio.

 O cabo também citou grampos ilegais relacionados a operação Seven, que teve como alvo o ex-governador Silval Barbosa, e na operação Rêmora, que apurou fraudes em licitações da SEDUC e que resultou na prisão do secretário Permínio Pinto, em 2016. 

Durante o depoimento do cabo Gerson, por várias vezes a atuação do membro do Ministério Público é irônica e tenta desqualificar as declarações sobre promotores. Na mais recente intervenção, disse o promotor Vinicius Gahyva : "há jornalistas da Revista Tititi presentes aqui na audiência?"

Eu cito que deste a chegada do Paulo Prado isso vem acontecendo. Há falta de trato com a verba

Verba secreta

O cabo gerson relata que há uma 'verba secreta' no Gaeco que fica depositada na conta de um propomotor. Quando há alguma necessidade, quando uma viagem, diligências, o dinheiro é sacado dessa conta por uma assessora. Os agentes prestam conta do que gastaram e devolvem o que sobrou. Esta sobre fica, segundo o cabo Gerson, num cofre do Gaeco. Ele afirma que sobras dessa verba são apropriadas de forma fraudulenta. 

“Ou seja, quando precisava tinha um monte lá. De prestação em prestação, sobrou um montante muito grande”.

“Dentro do Gaeco ocorriam tais condutas, na verdade, elas se arrastam há muito tempo. Eu cito que deste a chegada do Paulo Prado isso vem acontecendo. Há falta de trato com a verba”.

“Por exemplo, rastreador de veículo - a aquisição e manutenção desses rastreadores devem ser feitos com contratos -, mas eram pagos com verbas secretas”, disse. Ele afirma que um promotor chegou a comprar um cachorro com dinheiro da verba secreta do Gaeco.

O promotor Vinicius Gahyva voltou a questionar a relevância da informação para o caso dos grampos e disse ter ficado curioso sobre a raça do cachorro. O juiz Marcos Faleiros intercém para dar continuidade.

Cabo Gerson relata que quem bancou o conserto da moto com dinheiro da verba teria sido o promotor Célio Wilson, enquanto que o promotor Marcos Regenold comprou o cachorro e o promotor Marco Aurélio usou o dinheiro para comprar rastreadores.

Segundo o cabo, o promotor Marco Aurélio deu dinheiro ilegal para a CDL.

Placas do Gaeco

O depoente passa a relatar como conseguiu as placas para instalar o sistema de escutas ilegais. “Peguei duas placas com o coronel Zaqueu e falei que eu precisava de um profissional que tinha conhecimento em TI. Foi quando sugeri o nome de Torezan. O Lesco levou o nome dele ao Zaque. Ele cedeu”.

“Pegamos as placas e foi nessa ocasião que eu vi que essas placas eram as mesmas do Gaeco. Porque quando o Paulo Prado era coordenador do Gaeco, essas placas ficavam no setor que eu trabalhava. Essas placas eu entreguei em mãos ao procurador Paulo Prado. Ou seja, essas placas eram do Gaeco, sem dúvida”

Financiamento do esquema

O cabo gerson confirma que inicialmente Paulo Taques pagou, duas vezes, em dinheiro, pelo custo da implantação do sistema de escutas. Foram dois pagamentos, um de R$ 12 mil e outro de R$ 40 mil. Depois quem pagou os custos do sitema doi o coronel Lesco. "Paulo Taques deu cano nele".

Os primeiros números de telefone grampeados eram de militares e criminosos investigados. Em setembro de 2014  foram grampeados nomes como os dos advogados José Antônio Rosa (jurídico da campanha de José Riva), Jose do Patrocínio (jurídico da campanha de Lúdio Cabral), o candidato José Marcondes Muvuca, a advogada Tatiane Sangalli (amante de Paulo Taques), o vereador Vinicius Hugueney (filho do Clovito), Michelle Cecilia da Silva, Eduardo Gomes Silva Filho (assessor Wagner Ramos), Romeu Rodrigues da Silva (assessor especial da Seduc), a jornalista Larissa Malheiros e o Coronel Mendes. “O coronel foi incluído por ser braço-direito de Riva no setor de inteligência. Inclusive, temos a informação de que ele mantinha um escritório clandestino para interceptação telefônica. Fato nunca provado”. Segundo o cabo, em detrminado momento as duas placas eram usadas e foram grampeados 120 terminais.

O cabo afirma que destruiu todas as informações dos áudios interceptados: "joguei todas no rio. Infelizmente nunca vão achá-las".

Despacho horroroso

Em seguida o cabo Gerson relata que tinha confiança no chefe do NACO, promotor Domingos Sávio, para quem apresentou pedido de delação. Mas depecpionou-se, pois um mês depis de ter apresentado todas estas informações, ele fez um "despacho horroroso", alegando que as informações eram 'requentadas".

“Eu esperava que ao menos ele abrisse uma investigação para apurar os fatos. Que negasse a delação, mas que abrisse a investigação. Mas ele negou e, em menos de um mês, fez um despacho horroroso daqueles”, queixou-se Gerson Corrêa.

Perguntado sobre sua motivação para aceitar o pedido de Paulo Taques, o cabo respondeu que nunca ganhou dinheiro com isso e foi motivado pela lealdade ao coronel Lesco. Acrescentou que ficou aliviado que "ontem ele resolveu falar tudo".

O promotor Vinicius Gahyva  novamente interrompe o depoimento e pergunta se todos os promotores praticam a 'barriga de aluguel' o cabo revida: "Quem queria ficar um ano preso segurando bronca dos outros como eu fiquei? As coisas das que sou acusado na grampolândia eu fiz a vida toda no Gaeco. Eu sou criminoso, estou assumindo. Mas quero que os que fizeram a mesma coisa que eu sejam investigadas".

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